3 sugestões para estudar melhor

3 sugestões para estudar melhor

Antes de começar o artigo partilho uma nota: onde se lê estudar melhor, pode ler-se aprender. Este artigo destina-se a pessoas estudantes e também a quem tem de aprender constantemente no seu contexto profissional – ainda que não seja um estudante inscrito numa escola ou universidade. Se procura técnicas só para safar um teste ou exame importante, então este artigo não é para si.

Agora sim, podemos mergulhar nas sugestões para estudar melhor. A minha referência é o trabalho de Barbara Oakley e Terrence Sejnowski, autores de um curso online disponível na plataforma coursera e do livro A Mind for numbers. Além de sugerir o que fazer para estudar melhor e aprender, os autores explicam-nos os fundamentos das sugestões. Aprendemos como acontece o aprender e por isso conseguirmos planear os estudos, considerar os passos do processo e ter melhores resultados.

Saber mais sobre como aprendemos permite que o momento de estudo possa ser mais divertido e menos frustrante, melhorar a nossa memória e adquirir processos de trabalho mais rápidos.

estudar melhor: o planeamento

Uma das aprendizagens fundamentais que adquiri ao ler o livro de Oakley foi a diferença entre os dois modos de trabalho do nosso cérebro: o modo focado e o modo difuso. Para mim tornou-se bastante claro o motivo pelo qual após um tempo de estudo intenso ou. de escrita, tenho necessidade de me ausentar do espaço de trabalho e ir à cozinha para tomar um café ou ir ao quintal e atirar umas bolas ao Félix. Quando faço isto, abandono o estado focado, de plena atenção à tarefa, e adopto o estado difuso. Este é um estado em que relaxamos, adoptando uma tarefa menos mental (exemplo, lavar a loiça), fazendo uma breve caminhada, desenhando ou fazendo scroll numa rede social.

Ter consciência destes dois modos de trabalho do nosso cérebro permite planear o nosso estudo ou trabalho para aproveitar o melhor dos dois mundos (o focado e o difuso). Podemos agir de forma mais consciente e planear pausas e entrar em modo difuso nos intervalos do modo focado. A técnica pomodoro criada por Francesco Cirillo pode ajudar-nos nesse planeamento:

Em linhas gerais, o método “usa o tempo como aliado” e consiste em dividir nosso dia em blocos de 25 minutos (“pomodoros”), com pequenos intervalos entre eles.

Este é o passo a passo:

1) Escolha a tarefa a ser executada;

2) Ajuste o cronômetro para 25 minutos;

3) Trabalhe na tarefa escolhida até que o alarme toque;

4) Quando o alarme tocar, verifique se completou a tarefa

5) Faça uma pausa curta (5 minutos);

6) Depois de concluir quatro blocos de 25 minutos de trabalho, faça uma pausa mais longa (30 minutos).

Cirillo recomenda concentrar-se ao máximo para realizar a tarefa no tempo determinado bem como anotar as distrações que ocorrerem durante esse período.

[O que é o ‘Método Pomodoro’ de gestão de tempo que conquistou fãs ao redor do mundo por melhorar produtividade]

Esta técnica permite-nos treinar o modo difuso, pois este pode ser difícil para alguns de nós. Pode ser considerado uma perda de tempo, por exemplo. Porém, é um tempo essencial para dar tempo ao nosso cérebro de continuar a trabalhar, sem que nos apercebamos disso. Já aqui tínhamos falado da importância das pausas para uma maior produtividade.

Podemos estabelecer recompensas para as pausas entre os pomodoro: falar com os amigos nas redes sociais, fazer um telefonema, ler, acender a televisão ou espreitar uma ted talk no you tube. Se a opção for ler, escolha algo fora do âmbito temático daquilo que está a estudar ou no qual está a trabalhar.

Uma vez que o exercício físico também é elemento coadjuvante na hora de estudar, sempre que possível opte por uma caminhada (pode ser de uma divisão da casa para outra, pode ser uma volta ao quarteirão na companhia do seu cão, por exemplo).

estudar melhor: pequenas tarefas

Quando estava a fazer mestrado tive de fazer um projecto de dissertação: pensar num título e nos tópicos que iria abordar. Depois, tive de me comprometer com um calendário de trabalho macro (com foco na data de entrega) e micro (mensal ou semanal), ou seja, planear os passos a dar. Algo que me ajudou no processo foi o de escrever o plano geral e depois dividir esse plano em pequenas partes.

Estas pequenas partes eram complexas: implicam ter de ler e estudar livros ou artigos que eram essenciais para certos capítulos, gerir datas com as minhas orientadoras e ter tempo para escrever. Pelo meio, toda uma vida de freelancer a acontecer. Quando me sentava para trabalhar no mestrado ajudava muito pensar, não que tinha de terminar a tese (isso só nos ajudar a entrar em pânico), mas sim que pretendia ler um artigo de 5 páginas e escrever 1 página do capítulo tal e tal.

Da mesma maneira quando nos sentamos para estudar é bom saber que temos de estudar aquele livro da página 50 à 75 – é bom ter esta noção do todo. Porém não vamos estudar essas páginas todas de uma vez. Assim, ao sentar para estudar o foco deverá ser: hoje vou estudar as páginas 50 e 51. Se o estudo for proveitoso, posso ir além dessas páginas.

Se gosta de ter uma To Do List deverá ter em conta esta divisão de tarefas. Ao invés de escrever: “tratar do projecto X”, escreva “tratar do ponto Y do projecto X” ou “preparar a reunião do projecto X”. Isto ajuda-nos a ter uma noção do que efectivamente fizemos e a não frustrar.

Uma vez que não controlamos tudo o que acontece no nosso dia de trabalho, eis um hábito que criei para não desanimar no final do dia com a minha To Do List:

Neste ponto da divisão do todo em pequenas tarefas devo confessar que aprendi muito ao estudar as propostas de Edward de Bono, sobretudo com a sua visão sobre a simplicidade. A sua famosa técnica, seis chapéus do pensamento, é um exemplo disso: pegar num processo complexo como o pensamento e encontrar seis linhas de pensamento simples para podermos pensar o mesmo assunto de forma paralela.

estudar melhor: a importância da prática e da repetição

A técnica pomodoro e o domínio da divisão de tarefas na To Do List podem não surtir efeito à primeira. Por este motivo é tão importante estarmos disponíveis para praticar e repetir.

A repetição é outra das sugestões da autora de Learning How To Learn. Quando estamos no processo de aprender algo novo nem sempre adquirimos esse conhecimento ou esse saber fazer à primeira. São precisas várias tentativas. A repetição também faz parte do processo de estudar. Como? Vamos ver um exemplo partindo da leitura de um capítulo de um livro.

Quando vou mergulhar na leitura do livro já passei por uma fase igualmente importante: passei os olhos pelo índice para ter uma noção dos vários capítulos. Escolhi o capítulo que me interessa e antes de aprofundar a sua leitura, passei os olhos pelo capítulo, prestando atenção aos tópicos (normalmente a negrito), a infografias ou imagens presentes nas páginas. Agora sim, vou ler. Terminada esta primeira leitura, afasto o livro dos olhos e procuro dizer o que consigo lembrar-me. Não é relevante, nesta fase, lembrar-me de tudo. Estamos só a treinar a memória.

Pode aproveitar a caminhada ou a ida ao café para fazer este exercício de memória. Depois, volte a ler.

Como assim, Joana? Vou repetir a leitura? Isso não é uma perda de tempo?

Voltar a ler é investir tempo para que o seu cérebro possa treinar a memória e ir construindo a aprendizagem em si mesma. Volte a ler e depois volte a pausar para dizer ou escrever aquilo de que se lembra. Por vezes aproveito os momentos em que vou conduzir para praticar este exercício. Também ajuda falar com alguém: seja um unicórnio de peluche que tenho na mesa de trabalho ou um cão chamado Félix.

*

Em suma: para estudar (ou trabalhar) melhor, ajuda muito:

  • ter uma noção do todo (o projecto, o capítulo do livro que tenho de ler) e dividir esse todo em pequenas tarefas;
  • dividir o tempo de estudo em pequenas partes usando a técnica pomodoro;
  • navegar entre os modos focado e difuso de modo consciente;
  • repetir e praticar.

Uma curiosidade: Barbara Oakley falhou nos estudos elementares de matemática e actualmente trabalha na área da engenharia. Se quiser conhecer um pouco mais sobre a vida da Barbara e a forma como fez da matemática e da ciência a sua profissão e paixão, invista 18 minutos a ver e a ouvir esta TEDx talk:

Aprender a aprender muda a nossa relação com os estudos, com as pausas, com as expectativas que temos e os objectivos que traçamos. Para aprofundar mais esta temática recomendo a leitura atenta do livro da Barbara Oakley e o curso disponível na plataforma coursera.

Photo by Brett Jordan on Unsplash

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