A arte de fazer perguntas

Seja na filosofia, no design thinking ou numa rede social como o tinder são as perguntas que nos salvam – ou que nos deixam em apuros. As perguntas ajudam-nos a encontrar o caminho para casa, a desenhar um website, a resolver problemas, a gerir uma reunião ou a conhecer a pessoa que nos pareceu atraente. Conseguiremos viver sem perguntas? Conseguiremos apurar a arte de fazer perguntas?

O livro “a arte de fazer perguntas”

Warren Berger é o autor do livro A Arte de Fazer Perguntas (publicado na editora Vogais) que me foi dado a conhecer por uma das participantes do #ClubeDePerguntas. Confesso que desconhecia o autor e que a abordagem me pareceu muito útil.

Estar disposto a fazer perguntas é uma coisa; perguntar bem e com eficácia é outra.

(W. Berger, A Arte de Fazer Perguntas, p.30)

Ainda que a pergunta seja tão natural quanto respirar, nem todas as perguntas são colocadas de forma clara e distinta, ajudando quem pergunta e quem escuta a navegar pelo discurso.

Perguntas abertas e perguntas fechadas

As perguntas podem desempenhar vários papéis, como abrir para possibilidades e perspectivas que ainda não contemplámos ou focar a nossa atenção num dado detalhe ou tópico.

Perguntar também pode assumir um tom de humildade: não sei nada sobre o assunto X e por isso resolvo perguntar a alguém. A pergunta surge como uma atitude de humildade e de reconhecimento de ignorância perante um dado tema.

No seu livro Berger apresenta-nos as perguntas abertas e as perguntas fechadas. As primeiras “não podem ser respondidas com factos simples – tendem , em geral, a estimular o pensamento divergente, mais do que as perguntas fechadas de “sim” ou “não” (Berger, p. 31).

A par da abertura ou do fechamento que provocam, o autor sublinha ainda o tom com o qual se faz a pergunta. Perguntar: “Estamos feitos, agora como é que vamos dar a volta a isto?” é bastante diferente de perguntar “Aconteceu algo inesperado. Será possível tirar partido desta situação?”

As perguntas como estas últimas, com um tom mais positivo, tendem a conseguir melhores respostas, de acordo com David Cooperrider, professor da Universidade Case Western, que desenvolveu a popular teoria da “interrogação apreciativa”. Cooperrider afirma que “as organizações gravitam em torno das perguntas que fazem”.

(W. Berger, A Arte de Fazer Perguntas, p.31)

Ao insistir numa pergunta deste tipo “Porque é que estou atrás do meu concorrente?” ou noutra pergunta muito popular nalgumas equipas: “Quem tem a culpa?”, os gestores e/ os líderes estão a posicionar-se à defesa e no apuramento de culpados. Deste modo escapa-lhes um outro tipo de foco: procurar soluções e praticar optimismo, promovendo uma cultura de empresa motivada em corrigir erros no sentido de ser melhor hoje do que foi ontem.

Porquê? E se? Como? – com três perguntas apenas…

…se pode encontrar a solução para o problema. É esta a proposta de Warren Berger. A pergunta pelo Porquê? é importante por nos permitir aprofundar um tema, encontrar causas, esclarecer situações ou trazer à luz alguns conceitos. Por si mesma, pode não conduzir a uma mudança efectiva. Assim, Berger sugere um E se?, de modo a explorar possibilidades e alternativas ainda não consideradas. Depois deste processo exploratório há que desenhar o Como?

Vejamos o exemplo do autor, na p. 48 do seu livro:

A pessoa encontra uma situação que é menos do que ideal; pergunta Porquê?

A pessoa começa a ter ideias para possíveis melhorias / soluções, com ideias que normalmente progridem sob a forma de possibilidades E se?

A pessoa opta por uma destas possibilidades e tenta aplicá-la; na maior parte dos casos, isto envolve a tentativa de calcular Como?

A sequência de perguntas proposta por Berger representa, segundo o próprio, “uma progressão básica e lógica”. Considerando, por exemplo, a proposta de Edward de Bono (seis chapéus do pensamento), bem como outras ferramentas do design thinking partilham essa progressão básica e lógica com a proposta de Berger. A simplicidade da proposta de Berger permite que cada um de nós a adopte nos mais variados contextos, pessoal ou profissional. Trata-se de uma forma de caminhar face à solução ou ao esclarecimento.

Faça uso desta proposta. Como?

  • #1 identifique o problema, escrevendo-o;
  • #2 contemple o problema e pense de forma não organizado sobre o mesmo;
  • #3 escreva a sua pergunta “porquê?”;
  • #4 avance com uma resposta à pergunta;
  • #5 escreva a(s) sua(s) pergunta(s) “e se?”;
  • #6 avance com possibilidades de resposta ao(s) “e se?”;
  • #7 comece a desenhar o(s) “como?”.

Se possível, faça um registo escrito destes passos. Use post-it para poder ir movendo o pensamento de um lado para o outro, na sua mesa de trabalho ou numa parede.

Peça a alguém para pensar consigo: o diálogo pode ser o nosso melhor amigo na construção de perguntas – e respostas – claras e pertinentes.

*

Termino este artigo com algumas recomendações para pensar a relação das perguntas com a filosofia, a ciência e a criatividade:

Photo by Camylla Battani on Unsplash


2 thoughts on “A arte de fazer perguntas”

  1. Pingback: "Mas isso serve para quê?" - uma reflexão sobre coisas inúteis • Journal

  2. Também li o livro e adorei! Um guia para melhorar a arte de fazer perguntas e como as vemos 🙂

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