Desinformação e redes sociais

O tema é antigo, mas nem por isso deixa de ser prioritário falar sobre desinformação e utilização de redes sociais. A palavra que vigora é fake news – ou notícias falsas:

“(…) apesar das fake news não serem um fenómeno novo, o ciberespaço, ou o ecossistema informacional online é um campo particularmente fértil para a propagação de desinformação. A evolução e a consolidação deste “novo” espaço de disseminação tem um impacto colossal na forma como os indivíduos acedem a, consomem e partilham notícias (…)”

Pedro José Rodrigues Pinto, Fake news e social media em Portugal: conceitos, realidades e hipóteses.

O que separa as fake news da desinformação?

Não há uma linha que separa, pelo contrário, há uma linha que agrega, envolve, enquadra e reforça. Fake News é um termo vago, lato na sua possível contextualização, extremamente politizado, mas ainda assim, por demais redutor. O termo Fake News é hoje em dia comumente associado à caracterização de uma qualquer notícia com a qual o alvo da mesma ou os seus apoiantes não concordam. E de tão presente estar, na voz de actores sociais muito activos, este termo passou a ser conotado essencialmente com a cobertura jornalística da acção política. Como a política (ou muitos dos seus principais actores) é sempre percepcionada como algo de tão distante, muitas vezes como um processo de comunicação unidirecional, é fácil levantar a suspeita sobre situações tão comuns como uma falha não intencional de um jornalista, deixando-a ao mesmo nível que uma campanha orquestrada na qual se produzem verdadeiras notícias falsas.

Pedro Rebelo, Fake news ou desinformação? (artigo originalmente publicado no Shifter, em Novembro 2018)

Abusando das palavras de Yuval Noah Harari no livro 21 lições para o século XXI, não podemos esquecer que há muitos séculos alguém, os cristãos, quiserem convencer o mundo que a Bíblia descrevia factos. Por sua vez, os muçulmanos fizeram o mesmo, em relação ao Alcorão. “Quando mil pessoas acreditam numa história inventada durante um mês, chamamos-lhe fake news. Quando mil milhões de pessoas acreditam nisso há mil anos, dizemos que isso é uma religião (…)” (Y. N. Harari).

A humanidade tem um longo passado com as fake news. É uma história de amor 🥰 antiga. Mas agora parece que é mais fácil acusar as redes sociais, essas malvadas que nos obrigam ao SHARE, RT e ao LIKE, abdicando de uma das características mais sapiens do homo sapiens: PENSAR.

Não quero com isto dizer que as redes sociais são inocentes, pois não são. A sua estrutura está pensada para nos manter por lá, para nos dar conteúdo com o qual já nos identificamos, para nos distrair. Ainda assim, partilho do optimismo da astrónoma Ana Posses, convidada da edição 62 do #twitterchatpt:

Em conversa com Daniel Oliveira no podcast Perguntar não ofende, Joana Gonçalves de Sá sublinha que nem todas as pessoas têm tempo, capacidade e energia para pensar de forma atenta. Depois de um dia de trabalho é natural que não haja tanta disponibilidade para praticar esse pensamento crítico e cuidado – neste sentido, estamos sujeitos a cair na armadilha na desinformação.

Importa aqui esclarecer que todos nós estamos sujeitos a essa armadilha, incluindo quem se dedica ao ofício da filosofia, tal como eu. Mesmo uma pessoa treinada e ágil no digital pode partilhar algo nas redes sociais sem verificar. Como é possível?

No livro Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman fala-nos em dois sistemas de pensamento, o sistema 1 e o sistema 2. O sistema 1 funciona de forma automática e manifesta alguma preguiça. O sistema 2 é aquele que nos permite ler um artigo de forma concentrada para depois responder a um conjunto de perguntas, por exemplo. O sistema 2 exige energia e disponibilidade que o sistema 1 dispensa – e por isso é fácil alinhar na forma de agir do sistema 1: ver e partilhar, sem verificar (por exemplo).

Durante a conversa com Daniel Oliveira, a investigadora Joana Gonçalves de Sá refere que, ainda que sejamos levados a pensar que, no contexto das redes sociais, os bots teriam um papel fora do comum nesta partilha, são precisamente os humanos os agentes fundamentais na partilha de fake news e de desinformação. Partilhar notícias falsas é algo humano – digo eu, demasiado humano.

Fake news, desinformação e viés de pensamento

Passo a palavra ao professor de filosofia Vitor Lima, responsável pelo canal youtube Isto Não É Filosofia e pelo Clube do Livro INÉF:

Neste vídeo, Vitor Lima refere o viés de confirmação como um trampolim para a partilha de notícias sem verificação, sem atenção, sem praticar o parar para pensar.

Estudar e/ou ler sobre enviesamentos de pensamento e sobre falácias permite-nos estar mais atentos ao que lemos, ao que ouvimos e ao que dizemos. Tal como a vacina e o SARS-CoV-2, o estudo é uma ferramenta que nos protege da desinformação, mas não exclui outras medidas complementares .

Como lidar com a desinformação?

Para responder a esta pergunta, parto das ideias da Joana Gonçalves de Sá que sugere
1) o redesenhar das redes sociais,
2) aprender mais sobre o funcionamento do cérebro e sobre os nossos comportamentos, e
3) educar para o pensamento crítico.

Neste último ponto, a investigadora tem algumas reservas, sobretudo no que diz respeito a uma possível ilusão de compreensão que pode resultar da simplificação de conteúdos complexos (como os conteúdos científicos, por exemplo). Corremos o risco de simplificar o discurso ao ponto de podermos pensar que também nós somos capazes de dizer isto ou aquilo com propriedade sobre um dado tema.

O drama não é que as pessoas tenham opiniões, mas sim que as tenham sem saberem do que falar.

José Saramago, A ignorância é a mãe de todas as polémicas, Diário de Notícias, Lisboa, 12 de Julho de 1992

Ainda na linha do tweet da Ana Posses, diria que aquilo que cada um de nós pode fazer passa por ter hábitos de verificação e evitar a precipitação.

Verificar e não ter pressa são duas atitudes que nos permitem falar com mais qualidade e em menor quantidade. Desta forma abrimos caminho para a prática do pensamento crítico e criativo, seja no contexto pessoal ou no contexto profissional. 

Joana Rita Sousa, 2 coisas que qualquer pessoa pode aprender com Descartes

Nos dias que correm há pessoas dedicadas a embrulhar o estudo e a prática do pensamento crítico numa moldura ética, o que permite a sensibilidade ao contexto, algo que me parece fundamental para tomar a decisão sobre o que fazer a seguir. Saber uma lista de falácias é útil, mas a identificação de um discurso falacioso não é independente do contexto onde ocorre.

Saliento o trabalho de Vitor Lima cujos cursos de pensamento crítico têm uma sustentação ética e de prática de virtudes. A prática da ética é algo que depende de cada um de nós, enquanto pessoas humanas, e que também é uma preocupação dos cientistas, como partilha o professor Carlos Fiolhais.

Combater a desinformação nas redes sociais é um trabalho diário. Vamos a isso?

Para continuar a pensar sobre desinformação:
Ciclo de Conferências Como Dialogar com quem não quer ouvir: para lá da polarização e da desinformação, uma iniciativa do Seminário de Jovens Cientistas;
Gosto, logo existo, de Isabel Meira e Bernardo P. Carvalho, editado na Planeta Tangerina e recomendado pelo PNL2027;
Pipocas com Telemóvel e outras Histórias de Falsa Ciência, de Carlos Fiolhais e David Marçal, editado pela Gradiva e recomendado pelo PNL2027;
Racionalidade: O que é, porque parece rara e porque importa, de Steven Pinker, editado pela Presença;
Um Mundo Infestado de Demónios, de Carl Sagan, editado pela Gradiva.

Photo by Jorge Franganillo on Unsplash

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