Pensar torto por linhas mais ou menos direitas – enviesamentos de pensamento

Este artigo pretende apresentar a ideia: o ser humano não pensa a direito. Pensamos torto, isto é, os nossos processos de pensamento são influenciados por tendências e hábitos dos quais nem sempre nos damos conta. Os enviesamentos de pensamento estão aí e é impossível escapar-lhes. O que podemos fazer? Tomar consciência da sua presença.

O que são os enviesamentos de pensamento?

Um viés ou enviesamento é uma tendência para pensar de certa forma, que nos conduz a desvios sistemáticos face à lógica, bem como a decisões irracionais.

An adopted hypothesis gives us lynx-eyes for everything that confirms it an makes us blind to everything that contradicts it. (Arthur Schopenhauer, The World as Will and Presentation, 1818 – citado por Stuart Ritchie, na obra Science Fictions).

Enviesamentos comuns: a tendência de confirmação

An adopted hypothesis gives us lynx-eyes for everything that confirms it an makes us blind to everything that contradicts it. (Arthur Schopenhauer, The World as Will and Presentation, 1818 – citado por Stuart Ritchie, na obra Science Fictions).

Um dos enviesamentos mais comuns é o viés de confirmação. Steven Pinker considera este viés como um “diagnóstico comum para a insensatez humana e um alvo para reforçar a racionalidade.” (Racionalidade, p. 26).

Rolf Dobelli não hesita ao escrever que “a tendência de confirmação é a mãe de todos os erros de pensamento” (A Arte de Pensar com Clareza, p. 37). É tentador aderir à ideia X pelo facto de ir ao encontro do posicionamento que eu defendo. Além de tentador, é menos trabalhoso.

Quando estou perante um ponto de vista que desafia ou refuta o que penso sou levada a repensar a minha ideia, testando-a, colocando-a em causa. Isso exige esforço e energia: afinal, temos tendência a gostar muito das nossas ideias, só por serem nossas e não necessariamente por serem construídas de forma racional.

O autor do livro A Arte de Pensar com Clareza chama a atenção para os algoritmos das redes sociais online e offline que nos abrem portas directas para o conteúdo que vai ao encontro do que pensamos:

Movemo-nos cada vez mais em comunidades que reúnem quem pensa da mesma maneira e isso só reforça a tendência de confirmação. (p. 43)

Como escapar a este viés? Tenho dúvidas que seja possível evitá-lo sempre e a todo o tempo. Porém, é possível ter consciência deste enviesamento. Uma das sugestões para o combater passa por dialogar com pessoas que defendem ideias diferentes das nossas e por ampliar leituras que refutam as nossas ideias. Nas redes sociais opte por seguir perfis que colocam em causa as suas ideias.

Rolf Dobelli recomenda ainda tomar notas dos nossos dogmas (nas mais diversas áreas, casamento, dietas, ideologias, estratégias profissionais) e procurar a sua refutação.

Enviesamentos na ciência

No livro Science Fictions, Stuart Ritchie sublinha que a ciência não escapa aos enviesamentos. Afinal, a ciência é pensada e desenvolvida por seres humanos. Os enviesamentos  surgem em diferentes momentos do processo científico, desde o trabalho prévio à investigação ou estudo que estamos a desenvolver, passando pela recolha dos dados e a análise dos dados, incluindo ainda a publicação desse estudo.

No capítulo 8 do livro citado, Ritchie refere-se ao excesso de publicações que confirmam as hipóteses estabelecidas face às publicações com resultados nulos. Quando o estudo termina e o resultado é nulo há uma tendência para considerar que não haverá possibilidades de publicação. Assim, esses estudos ficam na gaveta, os investigadores avançam no sentido de outro estudo, outro projecto e o mapa de publicações científicas fica demasiado cor-de-rosa:

There’s an age-old philosophical question that goes: “Why is there something rather than nothing?” We can pose a similar query about the scientific process: “Why do studies always find something rather than nothing?” Reading the science pages in the newspaper, one could be forgiven for thinking that scientists are constantly having their predictions verified and their hypotheses supported by their research, while studies that don’t find anything of interest are as rare as hens’ teeth. (p. 84)

Para saber mais sobre enviesamentos  

Partilho consigo alguns livros que podem ajudar a compreender e a identificar os enviesamentos de pensamento:

– Steven Pinker, Racionalidade (Editorial Presença)

– Daniel Kahneman, Pensar, Depressa e Devagar (Temas e Debates) – um livro que já foi sugerido aqui no Journal!

– Stuart Ritchie, Science Fictions (Vintage)

– Rolf Dobelli, A Arte de Pensar com Clareza (Temas e Debates)

Recomendo também o episódio do podcast 45 Graus, de Afonso Pimentel com Nuno Barbosa Morais (biólogo computacional).

Photo by Nathan Dumlao on Unsplash

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