Ética no trabalho

“Que falta de ética!” – já alguma vez ouviu ou disse esta expressão? E já alguma vez ouviu ou disse esta expressão no local de trabalho? O que queremos dizer quando acusamos alguém ou somos alvo da acusação de falta de ética? (E alguma vez acusámos ou fomos acusados de excesso de ética?) 🧐

O que significa ética?

O dicionário escolar de filosofia, Crítica na Rede, avança com uma entrada sobre ética assinada por Peter Singer:


Disciplina tradicional da filosofia, também conhecida por filosofia moral, que enfrenta o problema de saber como devemos viver.

(Peter Singer)

A pergunta à qual a ética pretende responder é “simples”: como devemos viver? Esta pergunta tem conhecido várias propostas de resposta ao longo da história da humanidade.

Os nomes que me surgem quando penso em ética são Aristóteles, Séneca, Marco Aurélio, Kant, Mill e o próprio Singer. Cada um destes pensadores avançou com possibilidades de resposta e imagino que aí desse lado do écran a pessoa que me lê já fez uso do pensamento destes filósofos quando tentou resolver um conflito de carácter ético. O mesmo será dizer: quando se interrogou “o que devo fazer nesta situação?”.

O desenvolvimento da ética normativa conduziu, há algumas décadas, ao aparecimento de outra área da filosofia moral — a ética aplicada. Nesta área discute-se o que é obrigatório ou permissível fazer pensando em certos problemas morais concretos que dividem as pessoas. Discute-se, por exemplo, em que circunstâncias é permissível uma mulher fazer um aborto, se a pena de morte é errada, se as pessoas devem ter o direito de usar armas, até que ponto é aceitável o uso de animais em experiências científicas e que tipo de conduta é apropriado durante uma guerra. Um segmento importante da ética aplicada, no qual se incluem algumas destas questões, é a bioética.

(Peter Singer)

Ética aplicada

A ética aplicada diz respeito à reflexão a partir de problemas concretos em determinadas áreas da nossa vida, tal como diz Singer no excerto partilhado acima. Assim, podemos falar de ética aplicada nas mais diversas áreas, incluindo uma área que ocupa muito do nosso tempo diário: o trabalho.

Desafio a pessoa que está desse lado do ecrã a pensar comigo no que se pode traduzir a ética, em que momentos do nosso trabalho, somos confrontados com questões éticas. A partir daí, vamos ver que tipo de respostas nos surgem e o que é que essas respostas dizem sobre nós.

A Mafalda e o Pedro

A Mafalda trabalha numa grande empresa, num open space partilhado com 30 pessoas. Uma das pessoas que mais a ajudou a entrar na cultura da empresa, bem como a aprender procedimentos (no fundo, a conhecer os cantos à casa) chama-se Pedro e já está na empresa há 8 anos. Circulam boatos de que há material de escritório a desaparecer e a Mafalda já ouviu conversas sobre esse tema nas pausas para o café. Um dia, a Mafalda apercebe-se que o Pedro está a retirar dois tinteiros do armário e a guardá-los na sua mochila. Dirigiu-se a ele e perguntou: “Então, Pedro? O que estás a fazer?” Pedro respondeu prontamente: “Vou levar isto para casa. Aqui ninguém vai dar por falta e sempre poupo uns trocos.”

O que deve a Mafalda fazer? Trair o seu mentor e denunciar o seu acto? Como classificar este acto do Pedro: trata-se de um furto? É um desvio?

E se o Pedro tivesse respondido: “Vou levar isto para o centro de dia lá do bairro. Aqui ninguém vai dar por falta e nem sempre a associação consegue ter fundos para estas coisas.” – o que mudava?

O Pedro está a roubar? O que muda quando sabemos quais são as razões do furto? Será que a Mafalda consegue denunciar o Pedro de forma anónima, sem que ele saiba que foi ela? E isso é uma traição à sua amizade?

Surgem muitas perguntas em torno deste caso que poderá ser transversal a várias ambientes de trabalho. Podemos estar a falar de tinteiros, de dinheiro, de acessos à conta zoom, entre outros. Perante a situação concreta, os seus intervenientes e o contexto, procuramos tomar uma boa decisão. Mas o que é uma boa decisão? O que é uma má decisão?

Os valores orientam a nossa vida e influenciam as nossas decisões, determinando o que pensamos acerca do que é melhor ou pior. Muitas vezes ouvimos as pessoas fazer afirmações acerca dos valores que aceitam. Podem dizer, por exemplo, que a honestidade, o respeito e a amizade são os valores que prezam acima de tudo. O que querem dizer é que essas são ideias que norteiam a sua vida, levando-as a realizar determinadas acções e a preferir determinadas coisas. Por vezes, os nossos valores parecem-nos tão importantes que chegamos a pensar que todas as pessoas deveriam aceitá-los. Por vezes também, só pensamos neles quando nos confrontamos com culturas que têm valores profundamente diferentes dos nossos.

(Pedro Galvão)

O Trolley Problem

Vamos deixar a Mafalda e o Pedro em paz e abordar o Trolley Problem, proposto pela filósofa Philippa Foot.

O Trolley Problem levanta a seguinte questão: “(…) why it seems permissible to steer a trolley aimed at five people toward one person while it seems impermissible to do something such as killing one healthy man to use his organs to save five people who will otherwise die.”

A proposta de experiência de pensamento de Foot está a ser constantemente actualizada quando consideramos carros autónomos ou drones que vão decidir se matam civis ou não, num contexto de guerra.

O contexto pandémico provocado pelo corona vírus trouxe questões éticas à superfície, semelhantes à questão do trolley problem, mas com uma variação: não se trata só da quantidade das pessoas que salvamos, mas de outras informações como a idade, o género, o histórico de saúde. Ora leia:

Imagine-se que amanhã chegam três pacientes em estado grave a um hospital com recursos escassos: um rapaz de 15 anos com diabetes, uma mãe de 25 anos sem historial de doenças e um avô com 80 anos. Por causa do novo coronavírus, eles estão a lutar pela vida e só nos resta um ventilador. A quem o devemos administrar? Qual é a acção correcta? Este não é um cenário meramente ficcional de uma aula teórica de ética; é algo que já está a acontecer em Itália, Espanha e, em breve, é provável suceder em Portugal.

(Domingos Faria, P3, 5 de Abril de 2020)

Já agora, veja aqui a experiência que o canal Answer in Progress desenvolveu a propósito da IA e do Trolley Problem.

O que faria o Kant?

Para me ajudar a responder a esta pergunta, passo a palavra a Todd May, que reflecte a partir da série The Good Place (Netflix):

Se Kant estivesse no lugar da Mafalda, o que faria? Como aplicaria o imperativo categórico no caso dos tinteiros?

O que fariam Bentham e Mill?

Todd May, a partir de The Good Place, responde:

Se Mill estivesse no lugar da Mafalda, como lidaria com o dilema dos tinteiros?

Ética, simuladores e canais

[simulador de ética] O Domingos Faria (um filósofo português que tem trabalho muito as questões da lógica e até já foi convidado do #twitterchatpt) lançou há uns meses um simulador de ética online. A experiência é interessante por nos permitir pensar em situações como a da Mafalda e a do Pedro. Ainda assim fica um alerta: a prática tem texturas que a teoria não dá e ainda que possamos ser muito kantianos, pode haver aquele momento em que a escolha é fazer de conta que não sabemos e não voltar a pensar no assunto. Afinal, no caso da Mafalda e do Pedro falamos apenas de tinteiros. Por enquanto. Imagine que o Pedro começa a levar outras coisas dentro da mochila?

[canal de ética] Uma pesquisa rápida no google levou-me a conhecer um Canal de Ética disponibilizado pelo Banco CTT. Para que serve? “O Banco CTT disponibiliza o Canal de Ética, onde poderá comunicar irregularidades, condutas inadequadas ou incumprimento de normas internas do Banco CTT e da Payshop (Grupo Banco CTT). Todas as comunicações são tratadas de forma independente e confidencial, garantindo a proteção dos seus dados pessoais, podendo manter o anonimato, assinalando esta opção no formulário. Para o efeito, a decisão de reporte deve ser tomada de forma consciente, ponderada e honesta.”

Consciência, ponderação e honestidade são os valores sublinhados pela entidade como fundamentais para que as pessoas possam reportar uma situação irregular, uma conduta inadequada ou o incumprimento de normas internas. É natural que o entendimento de consciência que o/a leitor/a tem seja diferente do meu e mesmo da instituição Banco CTT. Se não pensarmos sobre esse significado e se não dialogarmos sobre isso com os outros, o entendimento em torno das questões será difícil. Por entendimento não quero dizer acordo – podemos não concordar com a postura do nosso melhor amigo naquele assunto. Essa discórdia poderá mesmo abalar a amizade e as nossas relações com os outros. Estamos preparados para isso?

*

Este artigo falha e não responde à pergunta “o que devo fazer no local de trabalho?”. Define, apresentar abordagens, problematiza, porém não dá A resposta. A resposta está consigo, caro/a leitor/a.

Se procura boas fontes para ler sobre estas questões, do ponto de vista filosófico, recomendo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, o já citado Crítica na Rede, bem como The School of Life e Isto Não é Filosofia (INÉF). Neste artigo de sugestões de verão também é possível encontrar recomendações na área da filosofia.

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