(mais) 3 falácias comuns no nosso dia-a-dia

As falácias fazem parte do nosso quotidiano, embora nem sempre se tenha consciência da sua presença no discurso oral ou escrito.

Se queremos pensar criticamente, apostando na clareza do discurso e na honestidade intelectual, temos de nos preparar para a probabilidade de incorrermos em erros de raciocínio. Erros que nem sempre conseguimos evitar.

Dando continuidade ao artigo publicado aqui no Journal, vamos explorar mais três falácias comuns. Desta vez abordamos a generalização apressada, o argumento ad hominem e o apelo à autoridade.

Generalização apressada

Pensamos indutivamente quando o ponto de partida para pensar o todo é uma amostra reduzida:

Todo o raciocínio indutivo depende da semelhança entre a amostra e a população. Quanto maior for a semelhança entre a amostra e a população como um todo, maior fiabilidade terá a inferência indutiva. Por outro lado, se a amostra tiver diferenças relevantes face à população, então a inferência indutiva não será fiável. (Stephen Dowes)

A generalização apressada é uma falácia que parte de uma amostra pequena para assumir uma ideia sobre toda uma população. Imagine que tenho uma experiência desagradável com uma pessoa de uma determinada profissão, por exemplo, um profissional da área dos seguros. Essa pessoa engana-me ou tenta enganar-me. A partir desse dia passo a dizer que todos os profissionais dos seguros são pessoas trapaceiras.

O mesmo pode acontecer tendo em conta a experiência com pessoas de certa etnia ou classe social. Ter uma experiência negativa ou positiva com uma amostra pequena de um grupo mais vasto não deverá fazer-me precipitar numa generalização que vincula todas as pessoas desse grupo.

Argumento ad hominem

O ad hominem é muito comum. Acontece quando, em vez de atacarmos o argumento da pessoa, atacamos a pessoa em si: a cor do seu cabelo, a sua nacionalidade, as pessoas com quem priva ou a sua religião.

No livro Pensar de A a Z, Nigel Warbuton sugere um exemplo que ilustra bem esta falácia:

Por exemplo, alguém poderia argumentar que não devemos levar a sério as conclusões de um cientista que investigou os efeitos benéficos do exercício físico para o sistema cardiovascular, na medida em que o cientista é obeso e provavelmente não conseguiria correr mais de cem metros. Contudo, este facto é inteiramente irrelevante para a capacidade do cientista para avaliar indícios. Se afinal se revelasse que o cientista é mentiroso, ou um investigador incompetente, então isso seria relevante para compreender os resultados da investigação. (p. 49)

Nesta falácia importa sublinha a questão da irrelevância do elemento que se assinala, no exemplo apresentado, a obesidade do cientista. Por vezes, introduzimos estes elementos para tentar descredibilizar a pessoa em questão, constituindo uma espécie de manobra para distrair face ao que realmente importa – neste caso, as conclusões do estudo sobre os benefícios do exercício físico para o sistema cardiovascular.

Apelo à autoridade

O apelo ou argumento de autoridade diz respeito à aceitação de afirmações como verdadeiras simplesmente pelo facto de ter sido uma pessoa especialista no tema a dizer que tais afirmações são verdadeiras.

Note que é muito importante reconhecer o conhecimento, bem como delegar ou confiar em especialistas. Não teremos tempo nem energia para verificar ou aprender sobre todas as temáticas possíveis.

Os especialistas têm o seu lugar e devem ser reconhecidos. Temos de nos acautelar quando ouvimos uma pessoa especialista em física quântica a opinar sobre ortopedia, por exemplo. Também temos de garantir se o especialista em causa pratica a honestidade intelectual, além de lembrar que também os especialistas são falíveis, tal como eu e a pessoa leitora deste artigo.

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Além dos livros recomendados no artigo 3 falácias comuns no nosso dia-a-dia, poderá ser útil visitar o website Crítica na Rede e a tradução do Guia das Falácias da autoria de Stephen Downes. Aí encontramos uma lista extensa de falácias, bem como bibliografia complementar.

A chave para o pensamento crítico passa pela consciência de que a dado momento vamos errar e que é importante ser humilde quando reconhecemos ou quando alguém nos aponta falhas.

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