O WordCamp Portugal 2026 aconteceu este sábado, 16 de maio, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto, e mais uma vez reuniu centenas de profissionais do ecossistema WordPress para um dia de 18 sessões e workshops sobre desenvolvimento, design, conteúdo, acessibilidade e negócio digital.
Agora… foram só estes temas? Não falta ali nada? Falta, e acho que já o adivinharam:
Os resumos que deixo a seguir são das palestras a que assisti, mas digo já que ficaram pelo menos outras 3 debaixo de olho para ver quando sairem as gravações. Ainda não consigo estar em dois sítios ao mesmo tempo. 🙂
Foram elas, O clique virou fado: La evolución del SEO en tiempos de IA e A Nova Era do WordPress: De Developer a Arquiteto com Engenharia Agêntica (uma porque ainda não tenho o dom da ubiquidade e outra porque já estava efetivamente a precisar de um break).
Os meus resumos do WordCamp Portugal
Conteúdo com especificidade: o Método FACE
A primeira sessão do dia trouxe um tema incontornável para quem trabalha com produção de conteúdo assistida por IA: como criar textos que se distinguem, que têm ponto de vista e que um modelo de linguagem não conseguiria gerar sozinho.
José Freitas, da Kaksi Media, apresentou o Método FACE (Função, Atividade, Contexto, Execução): uma framework que organiza o processo de produção de conteúdo com IA à volta de sete documentos essenciais: voz da marca, definição de entidade, público-alvo concreto, sitemap, experiências reais, avaliações de clientes e uma lista negativa de linguagem a evitar.
O princípio central é simples e direto: conteúdo genérico não tem valor.
A especificidade é o que cria diferenciação, e a regra de ouro é que qualquer texto publicado deve conter algo que os primeiros três resultados do Google não têm.
Quem quiser explorar a ferramenta de tom de voz desenvolvida no âmbito desta metodologia pode encontrá-la em metodo-face.kaksimedia.ai.
Web design em 2026: design para humanos, negócios e máquinas
Gustavo Galanti abriu com uma questão que foi surgindo ao longo do dia: o web design deixou de ser apenas comunicação visual. Hoje serve três audiências em simultâneo e isso muda a forma de ser abordado.
- Past: Designed for desktop screens only
- Then: Responsive design for everyone (mobile, tablets, accessibility)
- Now: Designing for everyone + machines (AI)
- Design no longer decoration — it’s business performance
- Beautiful websites are everywhere, but effective websites are hard to build
Desenvolvimento WordPress com Claude Code e MCP
JuanMa Garrido mostrou como o Claude Code está a transformar a forma de trabalhar com WordPress em ambiente de desenvolvimento.
A ideia central é usar linguagem natural para executar tarefas que antes exigiam memorizar comandos específicos. O Claude Code lê o código-base, edita ficheiros, corre comandos e integra-se com ferramentas de desenvolvimento, tudo a partir de uma instrução em linguagem corrente.
O que tornou a sessão particularmente relevante foi a demonstração do protocolo MCP (Model Context Protocol), que permite ligar agentes de IA a instalações WordPress e interagir com elas de forma direta, seja para consultar conteúdo publicado, criar rascunhos ou verificar plugins instalados.
Mas isso é só a parte mais simples de explicar… a seguir vem tudo o resto. 🙂
O ecossistema de skills WordPress é uma peça importante deste puzzle, e vale a pena explorar.
A agência não morreu. Mas o modelo de horas, sim
Esta foi, provavelmente, a sessão com a mensagem mais direta do dia para quem é uma agência, seja em web design seja noutras áreas digitais.
Juan Jurado fez um diagnóstico claro do estado do mercado: as agências estão a ser comprimidas em dois extremos.
Por baixo, as soluções DIY cada vez mais capazes. Por cima, as grandes consultoras que entram no espaço digital. No meio, quem vende horas de trabalho está a perder, porque as horas estão a tornar-se uma commodity.
A proposta é uma mudança de posicionamento: de “construímos sites WordPress” para “resolvemos um problema específico para um sector específico”.
A estratégia torna-se o produto. E a descoberta paga, com dados que mostram que agências que cobram pela fase de diagnóstico fecham 68% dos projetos acima de 5.000€, contra 12% das que oferecem auditorias gratuitas.
A frase que ficou, atribuída a Remkus de Vries, resume bem o tom da sessão: “a definição de trabalho valioso está a mudar, e algumas pessoas vão percebê-lo tarde demais“.
Gutenberg Blocks com IA: desenvolvimento assistido com responsabilidade
Imran Syed, da rtCamp e core contributor do WordPress, apresentou o estado atual do desenvolvimento de blocos Gutenberg com assistência de IA.
Em demonstração ao vivo, Syed desenvolveu um bloco de acordeão onde a IA separou automaticamente o conteúdo colado de um Google Doc em itens individuais.
Entre a dificuldade de se encontrar um bloco que faça o que queremos, dentro da imensidão de plugins existentes, ou a capacidade de criarmos os nossos próprios blocos de conteúdo, abre-se uma janela muito interessante para o desenvolvimento futuro de sites em WordPress.
Machine-First Architecture: o fim da web diretamente para humanos
Slobodan Manic apresentou talvez a sessão mais estruturalmente disruptiva do dia.
O tráfego não-humano ultrapassou o tráfego humano pela primeira vez em 2024 e está a crescer oito vezes mais rápido. 5,5% de todo o tráfego online já é gerado por sistemas de IA.
A consequência prática é que a maior parte dos sites foi construída para consumo visual humano, e não para ser lida por máquinas.
Sites JavaScript-heavy são invisíveis para muitos agentes de IA e as estruturas semânticas pobres geram erros de interpretação quando um agente não encontra o contexto que procura.
A framework Machine-First Architecture proposta passa por três eixos:
- uma definição canónica e consistente do que a empresa é (e manter essa definição atualizada nas cinco plataformas-chave),
- reescrever as primeiras 200 palavras das páginas mais importantes (44% das citações de IA provêm dos primeiros 30% do conteúdo de uma página),
- e implementar markup Schema.org completo para um tipo relevante, com todos os campos preenchidos.
Vou escrever um outro artigo sobre esta abordagem, com mais detalhe e informação. Para já fica só isto. 🙂
Acessibilidade e SEO: o “Clarity Dividend” que ninguém está a calcular
Anne-Mieke Bovelett encerrou o meu dia com uma das apresentações sobre acessibilidade mais fundamentadas em dados que fazem dor a qualquer negócio.
Os números de partida vêm de um estudo da Semrush e da AccessibilityChecker.org: 70% dos sites falham os requisitos básicos de acessibilidade.
Os sites que os cumprem têm, em média, 27% mais keywords a rankear em pesquisa orgânica, 19% mais autoridade de domínio e 23% mais tráfego, sem publicidade paga, sem novo conteúdo, apenas por corrigirem os elementos não conformes.
Sites inacessíveis geram o chamado “pogo sticking” (utilizadores que regressam imediatamente ao Google por não conseguirem completar tarefas), e isso penaliza o ranking. E segundo ela, isto é uma informação “escondida” para a maior parte das pessoas que trabalham na criação de sites. Eu estava incluído.
O ponto mais interessante foi a ligação à leitura por agentes de IA. Os agentes usam três métodos para ler sites: screenshots, HTML puro e a árvore de acessibilidade.
Num site com estrutura semântica fraca, a taxa de sucesso de tarefas em navegação exclusivamente por teclado cai de 78% para 28%. Para os agentes, é exatamente a mesma experiência.
Os recursos e os dados partilhados estão disponíveis em annebovelett.eu/resources/clarity-dividend/.
WordCamp Portugal 2026, um repositório de conhecimento a descobrir
“E então, Jorge, que tal foi o WordCamp?” – Ainda estou a apanhar as pontas e a dar sentido a todo um conjunto de coisas que foram sendo faladas de forma dispersa, algumas, mas que agora precisam de ser integradas para gerarem um conhecimento mais sólido e um mapa de ação.
Até porque vem já AI o WordPress 7.0 e na minha instalação de testes, já os liguei. Depois vão perceber. 😉
Nas próximas semanas vou lançar mais alguns artigos que decidi escrever ao longo do WordCamp. Agora podia dizer para me seguirem e não perderem as novidades… mas se eu deixei de publicar coisas nas redes… como é que me vão seguir?
Olha, vão passando.
Também vou atualizar este artigo ao longo da semana, assim que tiver todos os vídeos e os links certos para as apresentações e outras referências destas palestras.
Outras ideias? Nos sítios do costume. 🙂