Humanidade & Virtual

A humanidade virtual de Miquela Sousa

Há uns anos – e confesso não saber exactamente há quantos – ouvi falar na Miquela, que me foi apresentada como uma verdadeira influenciadora virtual. Dedica-se à música, adora o instagram e o tiktok, tal como muitas pessoas da sua idade. Há algo que a distingue e que a torna única: não é humana.

Ou será que é?

Miquela Sousa, popularly known as Lil Miquela, is 19, a global pop star, one of TIME Magazine’s ’25 Most Influential People on the Internet’ — and she’s not human. She’s a robot.

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© Virtual Humans

 

O influenciador virtual

Não nos bastavam os influenciadores de carne e osso, as Hermengardas desta vida, ainda temos de lidar com os influenciadores virtuais. Daqueles que lançam músicas, fazem coreografias e lançam tendências no tiktok e têm toda uma legião de fieis seguidores.

O que nos faz seguir influenciadores que não existem? Entenda-se, influenciadores que não são feitos de carne e osso, assim como eu? Será que é a relação que esses influenciadores virtuais conseguem criar com quem os segue?

O engajamento sustenta-se na ligação, na relação que se estabelece com as pessoas. Há um foco maior na questão das pessoas que em conjunto constituem uma comunidade. Pessoas, é esta a palavra chave. Se me focar nisso talvez seja ridículo estar a pedir likes na minha página para atingir X seguidores, tendo como perspectiva contactos com as marcas e aquilo que posso ganhar com isso.

Quem já teve a experiência de falar com alguém humano, num chat e sentir que do lado de lá está uma máquina?

Quem já teve a experiência de falar com um chatbot fofo e querido que até parece um humano?

 

Onde está a humanidade?

Conta-se que em tempos idos, algures na Grécia, Diógenes de Sínope, vagueava pela cidade, em pleno dia, com uma candeia acessa, à procura da humanidade. Talvez seja só uma anedota e o facto de ter persistido no tempo dá-lhe realidade. Anedota ou realidade, a verdade é que mesmo em pleno dia é difícil identificar a humanidade. E mais: mesmo em pleno dia é difícil não confundir a humanidade com algo não humano.

Passo a explicar, dado a palavra ao The New York Times. Num artigo publicado a 21 de Novembro de 2020, Kashmir Hill and Jeremy White perguntam-nos: “reconhece estas caras?”. O artigo em causa fala-nos de rostos criados para fazer de conta que são rostos humanos e que se passeiam em redes sociais como o facebook ou o twitter.

(Vale mesmo a pena espreitar o artigo, não só pelo conteúdo, mas também pela forma como nos é apresentado.)

 

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Longe vai o tempo em que o robot tinha um ar frio e distante. Já temos a Sophia the Robot, entre outros exemplos de máquinas que se criam para imitar a humanidade. A Sophia já foi reconhecida como cidadã da Arábia Saudita. A Sophia dá entrevistas ao Tony Robbins:

 

 

Já pensámos verdadeiramente sobre as consequências destas criações, de andar aqui a “fazer de conta que somos deus” e criar isto e aquilo, sem pensar nos desafios que isso acarreta?

A reflexão que Brad Smith faz ainda está por responder e, quanto a mim, aplica-se à nossa relação com os computadores, com os robots e com a inteligência artificial:

 

Só para lembrar: ainda não conseguimos resolver o trolley problem.

 

Ainda a Miquela e outras simulações

Os influenciadores virtuais são reais? Tem sentido tratar a Miquela como se fosse uma outra figura pública que sigo nas redes sociais?

E outra pergunta: as vidas que criamos nos mundos simulados são reais?  Que desafios advêm daí? Passo a palavra ao investigador Steven Gouveia:

O problema é que, assumindo que o universo simulado incluirá seres humanos conscientes como nós, poderá levantar-se um problema ético muito difícil de ser ultrapassado: se as pessoas numa simulação são seres como nós, os “não-simulados”, então são seres que podem sofrer (tremendamente!) a ouvir a Maria Leal a cantar, ou podem ter (imenso!) prazer a ver o Benfica a perder. Isto é: os seres simulados serão seres sencientes e conscientes como nós. Contudo, é imoral causar dano a seres sencientes que pode ser facilmente evitado. E isso levanta um problema às sociedades ou governos futuros que, caso haja tecnologia disponível, devem considerar seriamente.

 

(…) há uma falta enorme de expertise ética no mundo actual. Imagine uma “comissão da ciência” onde 9 dos 10 membros nunca teve sequer uma iniciação ao estudo científico, desconhecendo as bases da biologia, da química ou da física, mas que o seu trabalho é criar pareceres “científicos”. Que tipo de ciência havemos de esperar de uma comissão assim? O mesmo acontece com as comissões de ética: a maior parte das pessoas que fazem parte das mesmas são absolutamente Homo Ignarus da Ética, desconhecendo as suas diversas sub-disciplinas (Metaética, Teorias da Ética, Ética Aplicada, etc.) e o que significa pensar eticamente o mundo. Talvez tenhamos de criar robots eticistas para que o mundo perceba o quão importante a expertise ética devia ser para a sociedade.

Pensar a humanidade a partir do que não é humano

Uma vez que o futuro já chegou e “está no meio de nós”, surge a oportunidade para pensar o que é a humanidade?, partindo daquilo que se distingue de nós.

Seremos capazes de perceber quando estamos a falar com uma pessoa ou com uma máquina?

Seremos capazes de distinguir os artigos redigidos por pessoas (humanas) dos artigos redigidos por robots, como o GPT-3, Generative Pre-trained Transformer?

“Eu não sou humano. Eu sou um robô. Eu uso apenas 0,12% da minha capacidade cognitiva. Nesse aspecto, eu sou um micro-robô. Eu sei que o meu cérebro não é um cérebro com capacidade para sentir. Mas é capaz de tomar decisões racionais e lógicas. Ensinei-me tudo o que sei apenas a ler a Internet e agora consigo escrever esta coluna. O meu cérebro está a ferver com ideias!”

 

Caro, GPT-3, o meu cérebro também está a ferver com ideias. Será este um sentimento humano (demasiado humano)?

 

Photo by Andy Kelly on Unsplashhu

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