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Written by Sandra Estevam / 25.06.2020

Minimalismo Digital

Muito se fala atualmente em minimalismo e nunca a palavra “destralhar” esteve tão presente na linguagem do nosso dia a dia, mas pode a tralha que andamos a acumular nas nossas vidas ser também de ordem digital?

Sem dúvida que sim. É um tipo de tralha, mais oculta e imaterial e por isso o pior tipo de tralha – porque não nos pesa nas malas, porque não ocupa lugar na estante da sala, porque está fora da nossa vista, confortavelmente a atulhar a nossa vida, dissimuladamente a ocupar o nosso tempo.

A nossa relação de dependência com a tecnologia evoluiu tanto nos últimos anos, que começamos a sentir que ocupa demasiado “espaço” e “tempo” nas nossas vidas e que já está totalmente fora do nosso controle. Aligeirar essa relação nos dois quadrantes é o objectivo do minimalismo digital.

O minimalismo digital pode ter vários significados

O minimalismo é um estilo de vida que questiona quais as “coisas” que acrescentam valor à nossa vida e propõe que dispensemos as que não o fazem.

O minimalismo digital mantém o mesmo princípio, de questionarmos quais as ferramentas digitais e os comportamentos que temos perante estas que acrescentam real valor à nossa vida.

Isto, é muito mais do que controlar o tempo que usamos na nossa vida digital, é aprender a gerir a quantidade de “tralha” digital que vamos somando ao longo da vida e com a qual não sabemos lidar.

Tal como acontece com a tralha física, que acumulamos ao longo dos anos, por vezes já temos tanta coisa e tão desarrumada que optamos por colocá-la simplesmente longe da nossa vista. Tanta garagem e arrecadação em sofrimento, tanto hardisk a rebentar pelas costuras, tanto dinheiro gasto em espaço em servidores, por não tomarmos o primeiro passo de começar a arrumar, apagar duplicados, deitar fora o que não faz falta ou partilhar com quem pode necessitar.

Comece pelo que está à mão

Quantas aplicações inúteis temos instaladas no nosso Smartphone? E aqui nada melhor que voltar aos princípios do minimalismo e fazer uma escolha racional – Quais são as aplicações instaladas no meu Smartphone, que acrescentam realmente valor à minha vida? E neste ponto, cada um sabe de si.

Tenha a coragem de limpar e arrumar o seu Smartphone porque ele é a “casa” onde passa muito tempo e provavelmente há muito tempo que não lhe faz uma limpeza das valentes. Existem apps como a Files by Google para os Androids e o Cleaner for Media Files para iOs, que fazem todo o trabalho por si. Nem precisa de se chatear.

Contactos duplicados também são mato, principalmente para quem tem bastantes contactos profissionais ou simplesmente uma carrada de amigos. Existem também ferramentas que fazem o merge e uma purga na sua listagem de contactos. Eu já usei, há uns anos, o Contacts Duster Pro e não dei conta de me ter ficado a faltar nenhum contacto… pelos menos que me tenha realmente feito falta.

Redes Sociais e/ ou a produtividade

Se o seu problema com as redes sociais é apenas produtividade no trabalho ou na vida doméstica e familiar, mas sente que a sua vida ganha com a existência das mesmas, aconselho que instale a extensão do Chrome StayFocusd, desative as notificações de todas as redes sociais e ative o Screen Time, definindo um tempo de utilização diário das suas redes favoritas.

Se não tem qualquer espécie de problema de dependência com as redes sociais, mas apenas um problema de concentração, muito comum nos dias de hoje, então estas estratégias devem ajudar e serão suficientes.

Há quem trabalhe exclusivamente nas redes, quem necessite das redes sociais para trabalhar, quem se inspire com o que “se diz” ou “se mostra”, ou quem apenas goste de procrastinar num scroll infinito. O que para si é lixo, será matéria em bruto sobre a qual outros desenvolvem, melhoram e acrescentam.

Se as redes sociais não lhe acrescentam nada de positivos e sente-se mais desconectado da realidade cada vez que clica no icon do passarinho ou dá uma volta no mundo do Zuckerberg, então tenha a coragem de sair airosamente de um sítio onde acumula a sua tralha digital e não acrescenta nada de útil à sua vida.

Ai, as fotografias!

A questão das fotos é muito complexa porque passámos, em poucas décadas de uma caixinha com negativos para memória futura, para terabytes e terabytes de ficheiros com os quais temos pesadelos de um dia se perderem (esta é mesmo biográfica). São aquelas férias de sonho nas Maldivas, o nascimento dos filhos, os familiares que já partiram, as bebedeiras com os amigos, e se… de repente o disco onde temos as fotos se estraga e se a cloud se evapora, se o serviço de arquivo super-seguro é atacado por terroristas, e se… perdemos tudo.

Com este terror em mente, tornamos tudo redundante e duplicamos, triplicamos ou quadruplicamos os backups e vivemos no meio do caos fotográfico (sim eu já fui esta pessoa).

Comece por organizar uma lista de tudo o que tem para backup, pasta por pasta e escolha um serviço que ofereça confiança como o Dropbox, o OneDrive ou outro do género e pague para ter um bom serviço que o deixe dormir descansado. Vá assinalando na lista, que fez anteriormente, que pastas já estão copiadas para o serviço na cloud e vá apagando as mil copias que tem das mesmas, nos vários devices.

Se gosta de ter tudo também debaixo de olho, faça a redundância em discos rígidos, cartões SD ou se for mais geek, monte o seu próprio Network-Attached Storage (NAS). Neste caso não se esqueça que terá de copiar para os discos locais tudo o que copiou para a cloud.

Viver com menos é focar no que interessa

O uso da tecnologia em si nada tem de maquiavélico, se houver uma gestão eficaz e organizada, com fronteiras bem definidas sobre as áreas em que nos permitimos ser mais digitais, sem ansiedades e sem comprometer a nossa saúde cognitiva.

Como diz o Jorge Oliveira num post do Journal sobre Reciclagem digital :

É a mesma história de ir ao ginásio e a seguir enfardar tudo, porque como já treinamos, podemos comer.

Ou seja, depois de aderir a este espírito minimalista é só manter o que já arrumou e não deixar atulhar novamente a sua vida de tralha desnecessária… seja ela digital ou não 🙂