Nomadismo digital: uma forma de regresso ao passado?

Que estranha forma de vida

Antes de falarmos de nomadismo digital, façamos uma viagem ao passado.

Era uma vez uma estranha forma de vida que implicava não ter uma casa, nem mesmo um carro. A vida transportava-se de um lado para o outro, de acordo com opções sazonais. “Dantes, o tempo corria lento, meu“.

Há 30 000 anos, uma recolectora chinesa poderia deixar o acampamento, com as suas companheiras, digamos, às oito da manhã. Percorreriam as florestas e prados próximos, colhendo cogumelos, desenterrando raízes comestíveis, apanhando rãs e, ocasionalmente, fugindo de tigres. Ao início da tarde, estariam de volta ao acampamento para fazer o almoço. Isso deixava-lhes tempo suficiente para trocar mexericos, contar histórias, brincar com as crianças e descansar.

Yuval Noah Harari, no seu livro Sapiens, compara a vida de uma recolectora chinesa, há 30 000 anos, com a de uma operária chinesa que, nos dias de hoje, deixa a sua casa em direcção à fábrica pelas sete da manhã, atravessando ruas poluídas até encontrar a fábrica onde o seu trabalho é explorado. Esta operária regressa a casa já de noite, para se dedicar a algumas tarefas domésticas.

 

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Photo by Jonathan Kemper on Unsplash

Nomadismo digital

Recupero este excerto do livro de Harari para pensarmos sobre o nomadismo digital. A grande diferença deste nomadismo para o da recolectora chinesa tem a ver com os meios de trabalho. Actualmente, não “acampamos” aqui ou ali para trabalhar, tendo como critério a existência de terrenos férteis ou de animais para caçar.

Os nómadas digitais andam de terra em terra, com ferramentas de trabalho que lhe permitem ligar-se “ao mundo” e assim trabalhar, estejam eles onde estiverem. Em vez de ferramentas de caça ou de trabalho na terra, temos agora tablets, computadores, smartphones, routers, hotspots e outras coisas que nos permitem trabalhar a partir de qualquer ponto do mundo (critério: ter uma conexão de internet estável).

 

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Photo by Markus Spiske on Unsplash

Progredir, andando para trás?

A fase nómada da Humanidade (*) é vista como um momento pouco evoluído: afinal, os seres humanos desta altura não tinham desenvolvido ainda técnicas ou saberes que lhes permitissem fixar o acampamento num determinado sítio, sem precisar deslocar-se para ter alimento. É comum esta visão de progresso, de sempre a subir, e o sedentarismo é tido como um pico evolutivo, um culminar. Será que é?

Parece-me que no quotidiano não nos lembramos muito da palavra sedentário a não ser quando nos dizem que a nossa saúde está afectada pelo facto de nos movimentarmos pouco, por passarmos muito tempo sentados e por aí fora. Não é habitual celebrarmos o sendentarismo, talvez por este se ter tornado num dado adquirido e sinónimo de “normalidade” ou “assim é que deve ser a vida”.

O nomadismo digital recupera o estilo de vida da recolectora chinesa, no qual um dia inclui momentos de trabalho, de lazer e de usufruto da vida.

 

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Photo by Damian Zaleski on Unsplash

Os essenciais do nomadismo digital

Uma rápida pesquisa no senhor google por “essenciais do nomadismo digital” conduzem-nos a vários artigos, até a alguns testemunhos sobre o tema. O contexto covid-19 e a vida pandémica dos últimos meses trouxe novamente à superfície esta estranha forma de vida, que implica assumir o teletrabalho, como algo quotidiano, bem como a integração de hábitos e procedimentos de trabalho onde quem contrata e quem é contratado não partilham o mesmo espaço físico.

Um dos pontos principais no nomadismo digital prende-se com a vontade e a prática da mudança, na vida pessoal e profissional. Colocar a mochila às costas e ir conhecer o mundo, mantendo uma carteira de clientes com a qual posso trabalhar a partir da mesa de um café algures no Japão, numa semana, e numa biblioteca algures na Rússia, na semana seguinte – esta “estranha forma de vida” não será para todos. Haverá sempre desafios, o que não é muito diferente de quem opta pela via de trabalho não nómada, como por exemplo, a gestão das boas relações entre pessoas de diferentes gerações.

Não será um mar de rosas, nem mesmo  maravilhoso durante as 24h de cada dia.

Breaking news: a vida, em geral, não é maravilhosa durante as 24h do dia.

E o futuro, esse, é um gelado de sardinha.

 

Referência bibliográfica: 

Yuval Noah Harari

Sapiens: História Breve da Humanidade – editado em Portugal pela Elsinore, 4.ª edição de 2017

(*) uma nota: ainda existem comunidades nómadas, não digitais, em alguns pontos do mundo.

 

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